Saúde · Biotecnologia

Vacinas de mRNA: o Brasil está pronto para produzir sua própria tecnologia?

A pandemia de COVID-19 expôs uma vulnerabilidade crítica do Brasil: a dependência de tecnologias e insumos farmacêuticos produzidos no exterior. Quando as vacinas de mRNA da Pfizer-BioNTech e da Moderna se tornaram as mais eficazes contra o vírus, o Brasil não tinha capacidade de produzi-las — e enfrentou dificuldades para adquiri-las em quantidade suficiente.

A resposta do governo foi um investimento significativo em capacidade de produção nacional de vacinas. O Instituto Butantan, em São Paulo, e a Fiocruz, no Rio de Janeiro, receberam recursos para expandir suas instalações e desenvolver capacidade de produção de novas tecnologias vacinais, incluindo o mRNA.

O que é a tecnologia de mRNA

As vacinas de mRNA funcionam de forma diferente das vacinas tradicionais. Em vez de introduzir um vírus inativado ou uma proteína viral no organismo, elas entregam uma instrução genética — o RNA mensageiro — que ensina as células do corpo a produzir uma proteína viral. O sistema imunológico então aprende a reconhecer essa proteína e a combatê-la.

A tecnologia tem vantagens significativas: é mais rápida de desenvolver e produzir do que vacinas tradicionais, pode ser adaptada rapidamente a novas variantes, e tem mostrado alta eficácia. Mas também tem desafios: requer infraestrutura de cadeia fria especial, e a produção em larga escala ainda é cara e tecnicamente complexa.

Onde o Brasil está

O Brasil fez progressos reais desde a pandemia. O Butantan desenvolveu uma vacina de mRNA contra a COVID-19 — a ButanVac — que passou por testes clínicos e foi aprovada pela Anvisa. A Fiocruz estabeleceu parcerias com empresas internacionais para transferência de tecnologia de mRNA. E o governo federal criou um programa de incentivo à produção nacional de biofármacos que inclui as vacinas de mRNA.

Mas os especialistas alertam que ainda há um longo caminho. A capacidade de produção em larga escala ainda é limitada. A cadeia de suprimentos para insumos críticos — como os lipídios usados para encapsular o mRNA — ainda depende de importações. E o ecossistema de pesquisa e desenvolvimento em biotecnologia no Brasil, embora crescente, ainda é pequeno em comparação com os países líderes.

O que está em jogo

A capacidade de produzir vacinas de mRNA não é apenas uma questão de saúde pública — é uma questão de soberania tecnológica. Um país que pode produzir suas próprias vacinas não fica à mercê de outros países em uma crise sanitária. E a tecnologia de mRNA tem aplicações que vão muito além das vacinas: terapias contra o câncer, tratamentos para doenças raras, e potencialmente muito mais.

O Brasil tem os ingredientes para se tornar um player relevante nessa tecnologia: institutos de pesquisa de qualidade, uma indústria farmacêutica estabelecida, e um mercado interno grande o suficiente para justificar o investimento. O que falta, dizem os especialistas, é consistência de política pública e investimento de longo prazo.

Dra. Patrícia Lemos Médica e pesquisadora em saúde pública. Doutora em Epidemiologia pela USP. Escreve sobre saúde, biotecnologia e política de saúde para a Alta Vela Digital.