Energia · Sustentabilidade

Hidrogênio verde: por que o Nordeste pode ser a Arábia Saudita da energia limpa

Há uma corrida global em andamento, e o Brasil — especificamente o Nordeste brasileiro — está em uma posição privilegiada para vencê-la. A corrida é pelo hidrogênio verde: o combustível limpo que muitos especialistas acreditam ser essencial para a descarbonização de setores difíceis de eletrificar, como a siderurgia, a petroquímica e o transporte pesado.

O hidrogênio verde é produzido pela eletrólise da água — a separação do hidrogênio do oxigênio usando eletricidade. Quando essa eletricidade vem de fontes renováveis, o processo não emite carbono. O resultado é um combustível de alta densidade energética que pode ser usado diretamente ou convertido em amônia para transporte.

Por que o Nordeste

O Nordeste brasileiro tem três vantagens competitivas que poucos lugares no mundo conseguem combinar. Primeiro, o sol: a região tem uma das maiores irradiações solares do planeta, tornando a energia fotovoltaica excepcionalmente barata. Segundo, o vento: os ventos alísios que sopram do Atlântico são constantes e fortes, especialmente no litoral do Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí — condições ideais para energia eólica. Terceiro, a localização: o Nordeste está a menos de 10 dias de navegação da Europa, o maior mercado potencial para o hidrogênio verde.

A combinação desses fatores significa que o custo de produção de hidrogênio verde no Nordeste pode ser um dos mais baixos do mundo — potencialmente abaixo de US$ 1,5 por quilograma até 2030, segundo projeções otimistas. Para comparação, o custo atual de produção de hidrogênio a partir de gás natural (o chamado hidrogênio cinza) é de cerca de US$ 1 a US$ 2 por quilograma.

Os projetos em andamento

O Complexo do Pecém, no Ceará, já abriga um dos maiores projetos de hidrogênio verde do mundo em desenvolvimento. O projeto, liderado por um consórcio de empresas europeias e brasileiras, prevê a instalação de capacidade de produção de 600 mil toneladas de amônia verde por ano — suficiente para abastecer navios e indústrias em toda a Europa.

No Rio Grande do Norte, outro consórcio está desenvolvendo um projeto de escala similar. E o governo federal criou um programa de incentivo ao hidrogênio verde que inclui isenções fiscais, financiamento do BNDES e simplificação regulatória para projetos no setor.

Os desafios

Mas há desafios significativos. A infraestrutura de transmissão elétrica no Nordeste ainda é insuficiente para suportar a escala de geração renovável que os projetos de hidrogênio verde requerem. Os portos precisam ser adaptados para o manuseio de amônia líquida. E a regulação do setor ainda está em desenvolvimento, criando incerteza para os investidores.

Há também questões sociais e ambientais. Os grandes parques eólicos e solares necessários para a produção de hidrogênio verde ocupam vastas áreas de terra — terra que pode estar em conflito com comunidades tradicionais, com a agricultura familiar ou com a preservação de ecossistemas. Esses conflitos precisam ser gerenciados com cuidado para que o hidrogênio verde seja verdadeiramente sustentável, não apenas em termos de carbono, mas também em termos sociais.

Apesar dos desafios, o potencial é real. O Nordeste brasileiro tem a oportunidade de se tornar um dos grandes exportadores de energia limpa do século XXI — e de transformar uma região historicamente associada à pobreza e à seca em uma potência energética global.

Eng. Rafael Costa Engenheiro de energia e especialista em transição energética. Mestre em Energias Renováveis pela UFCE. Colabora com a Alta Vela Digital com análises sobre o setor energético brasileiro.